Como o Mindfulness pode ajudar os engenheiros a resolver problemas

Artigo disponivel na Harvard Business Review.

(tradução para Português)

O trabalho dos engenheiros exige criatividade e inovação para resolver problemas complexos e interdisciplinares. Mas as competencias de criatividade e inovação não são enfatizadas em muitos cursos tradicionais de engenharia. Assim, muitos engenheiros entram no mercado de trabalho com competências de análise importantes, mas podem ter dificuldades para “pensar fora da caixa” quando se trata da solução criativa de problemas. O nosso estudo mostra que o Mindfulness pode ajudar os engenheiros a fortalecer as suas capacidades de gerar novas ideias, levando-os a novas formas de pensar e a obter melhores soluções.

A importância do pensamento divergente

No local de trabalho técnico típico, os engenheiros são solicitados a projetar dispositivos, sistemas ou processos, que podem ter metas conflituosas e várias potenciais soluções.

Em geral, o processo de abordagem destas tarefas é chamado de processo de design de engenharia. A equipa de engenharia recebe ou identifica um problema, define o âmbito do problema, gera muitas ideias para solucionar, avalia as ideias e propõe uma solução. Ao longo deste processo, os engenheiros envolvem-se em pensamentos convergentes e divergentes.

O pensamento convergente é linear, e constitui passar por uma lista de etapas para chegar a uma única resposta correta. Em contrapartida, o pensamento divergente explora diferentes direções do problema inicial para gerar muitas ideias possíveis.

No processo de design, os engenheiros usam um pensamento divergente ao gerar ideias, para que possam identificar uma ampla gama de possíveis soluções. E usam o pensamento convergente ao avaliar ideias para determinar a solução ideal.

Ambos os tipos de pensamento são importantes para encontrar a melhor solução final, mas o pensamento divergente é particularmente importante para o desenvolvimento de soluções inovadoras. No entanto, as competências de pensamento divergentes são amplamente ignoradas nos cursos de engenharia, que tendem a se concentrar em uma progressão linear de informações técnicas estreitas e focadas na disciplina. Isto leva a que os estudantes de engenharia se tornem especialistas a trabalhar individualmente e aplicar uma série de fórmulas e regras a problemas estruturados com uma resposta “certa”.

Não é surpresa, portanto, que os engenheiros lutem contra o pensamento divergente quando entram no mercado de trabalho. Felizmente, existem muitas técnicas para ajudar a aprimorar o pensamento divergente, como o brainstorming e needfinding, que dependem de um conjunto comum de atitudes. Durante o brainstorming, por exemplo, pede-se às pessoas que adiem o julgamento e sejam curiosas. A Escola de Stanford promove a navegação na ambiguidade a partir de uma atitude de “estar presente no momento” e sugere relaxar e alcançar um modo de aceitação enquanto faz protótipos.

Esses elementos de presença e curiosidade fazem parte de uma capacidade humana fundamental chamada Mindfulness.

Como o Mindfulness promove o pensamento divergente
Mindfulness é definido como prestar atenção de forma intencional com abertura, bondade e curiosidade. Embora os psicólogos continuem a explorar os mecanismos exatos pelos quais o Mindfulness facilita o pensamento divergente, há evidências convincentes que demonstram um nexo causal entre ser consciente e ser capaz de se envolver em pensamentos divergentes.

Embora pesquisas anteriores sobre mindfulness e pensamento divergente tenham-se concentrado em populações em geral, a nossa pesquisa procurou explorar a relação entre mindfulness, pensamento divergente e inovação, especificamente entre estudantes de engenharia e recém-formados em engenharia.

Realizamos dois estudos. No primeiro, analisamos o impacto de uma meditação de 15 minutos de mindfulness no desempenho do pensamento divergente entre 92 estudantes de engenharia da Universidade de Stanford. Estudos anteriores mostraram que uma única meditação pode melhorar a geração de ideias em populações de estudantes em geral.

Antes da experiência, todos os participantes preencheram um questionário para medir o  Mindfulness inicial. Em seguida, os participantes foram divididos em um grupo de tratamento e um grupo de controlo e solicitados a completar duas tarefas de pensamento divergentes: uma tarefa genérica de geração de ideias, na qual eram instruídos a listar o máximo possível de usos alternativos para um tijolo; e uma tarefa de projeto de engenharia, onde eles foram solicitados a listar todos os fatores que considerariam ao projetar um muro de retenção para um cenário de inundação do rio. No grupo de tratamento, os participantes foram guiados através de uma meditação de 15 minutos antes de completar as tarefas. No grupo de controlo, os participantes assistiram a um vídeo de 15 minutos sobre a redução do estresse antes de concluir as tarefas.

Em ambos os grupos, o estado inicial de Mindfulness mostrou correlação com o número e a originalidade das ideias que os participantes escreveram na tarefa de geração de ideias e com o número de fatores considerados na tarefa de projeto de engenharia. Os estudantes de engenharia que tinham um maior grau de Mindfulness inicial tiveram melhor desempenho nas tarefas de pensamento divergente.

Enquanto os resultados demonstraram uma relação clara entre Mindfulness e a melhoria do pensamento divergente, os resultados foram misturados com o impacto de uma única sessão de 15 minutos de Mindfulness no desempenho do pensamento divergente. A meditação melhorou a originalidade das ideias na tarefa de geração de ideias, mas não impactou o número de ideias que os alunos criaram na tarefa de geração de ideias ou na tarefa de projeto de engenharia com significância estatística.

Os nossos resultados sugerem que 15 minutos de prática da Mindfulness podem melhorar a originalidade das idéias, mas talvez não a quantidade. Estudos futuros poderiam se beneficiar da inclusão de uma formação de Mindfulness  mais substancial, além de uma única sessão de 15 minutos, para discernir se a prática da Mindfulness pode aumentar a quantidade de idéias, além da qualidade das idéias.

No segundo estudo, analisamos os resultados da pesquisa de aproximadamente 1400 estudantes de engenharia e recém-formados nos EUA para examinar a relação entre mindfulness e inovação. Baseamo-nos na Pesquisa Longitudinal de Engenharia, que é liderada por um de nós (Sheri), para medir o Mindfulness e a confiança na capacidade de ser inovador (o que chamamos de autoeficácia em inovação).

Descobrimos que o valor de Mindfulness inicial previu a autoeficácia em inovação em toda a nossa amostra de engenharia. Curiosamente, um componente particular de mindfulness, chamada de atitude consciente, foi o mais forte preditor de autoeficácia em inovação. Enquanto muitos estudos focalizam o aspecto atenção do Mindfulness, o nosso trabalho sugere que o componente mais essencial é a atitude com a qual você presta atenção – ou se você tem uma atitude aberta, curiosa e gentil.

Ter uma atitude aberta e curiosa é chamada de “mente de principiante” – a capacidade de trazer novos olhos para um problema e se comprometer em novas formas e perspectivas de o resolver. Permanecendo abertos a experiências, é mais provável que façamos conexões entre conceitos aparentemente não relacionados, o que é crucial para gerar ideias originais. Ter uma atitude gentil é um aspecto da autocompaixão, que protege contra a severa autocrítica e o medo do fracasso, inspirando as pessoas a assumir riscos e explorar territórios inexplorados, levando a novas soluções. Mindfulness suporta ambos.

Esses estudos têm implicações importantes para a educação em engenharia e para a força de trabalho técnica. Embora os engenheiros precisem de competências de análise e julgamento, eles também precisam cultivar uma atitude aberta, curiosa e gentil, para que não se fixem numa abordagem específica e que consigam considerar novos dados. Pesquisas futuras poderiam se basear nessas descobertas promissoras, porém preliminares, e explorar as melhores práticas para fortalecer a atenção plena em estudantes e funcionários de engenharia.

Décadas de pesquisa demonstram que o Mindfulness pode ser melhorado através da prática. Como resultado, muitas empresas pioneiras da Fortune 100, como Google, Cisco, P & G e Facebook, estão integrando a formação de mindfulness no local de trabalho para promover a criatividade e a inovação, bem como a inteligência emocional e o bem-estar em seus funcionários. Ao adaptar estes esforços às suas organizações de engenharia, estas empresas estariam bem servidas para considerar como a atenção pode aumentar o pensamento divergente que é tão essencial no projeto técnico, e como uma atitude consciente de abertura, não apenas atenção, pode ser um grande catalisador para mentes inovadoras.

Beth Rieken é recém-formada em PhD pelo Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Stanford, onde concluiu sua dissertação sobre mindfulness e inovação em educação de engenharia.

Shauna Shapiro é professora da Universidade de Santa Clara, autora, palestrante e especialista internacionalmente reconhecida em mindfulness e compaixão.

Shannon Gilmartin é pesquisadora sênior no Laboratório de Inovação em Liderança da VMware VMware da Stanford e professora adjunta de engenharia mecânica na Universidade de Stanford.

Sheri D. Sheppard é professora de engenharia mecânica na Universidade de Stanford, onde leciona aulas de graduação e pós-graduação em design e conduz pesquisas sobre design e como as pessoas se tornam engenheiras.