Vou, mais uma vez, trazer Novak Djokovic, porque admiro verdadeiramente este atleta em vários níveis. Novak esteve, mais uma vez, numa semifinal do Australian Open, e desta vez houve algo de particularmente marcante. Antes de qualquer resultado, antes de qualquer estatística, e independentemente do que venha a acontecer na final de domingo, houve algo impossível de ignorar: a forma como ele está.

Com 38 anos, num circuito cada vez mais rápido, físico e exigente, Djokovic torna-se o jogador mais velho de sempre a disputar uma final do Australian Open. Isto não é apenas um feito desportivo; é um sinal claro de algo que vai muito além da técnica. O que impressiona não é apenas o nível de jogo, mas a qualidade da sua presença.

Quem observa Djokovic com atenção percebe um padrão que se repete ao longo dos anos, não só nos momentos de servir, mas também nos intervalos, nas pausas e nos momentos em que regressa ao seu lugar. Nos momentos de maior pressão, quando o estádio está em ebulição e o ruído ameaça invadir tudo, ele pára. Literalmente. Pede silêncio, espera e respira.

Mesmo quando a emoção explode — porque explode — ele reconhece. Há momentos claros de raiva e frustração, mas há algo decisivo na forma como lida com isso: ele não fica lá. Não é um gesto teatral nem uma excentricidade; é uma escolha consciente. Djokovic sabe que o foco não se improvisa, que decisões importantes não se tomam em aceleração constante e que a atenção é um recurso finito e precioso. O silêncio, neste contexto, não é ausência de som, mas presença total no momento.

É nesse pequeno intervalo entre o estímulo e a resposta que reside a sua força. Djokovic não é um exemplo de controlo emocional absoluto; é um exemplo de autorregulação. Ele sente, reage, reconhece e depois faz algo essencial: regressa ao centro. Não reage para se livrar da tensão; cria espaço interno e só depois age.

Há algum tempo, Djokovic referiu algo que ajuda a compreender melhor o momento actual da sua carreira: o nível médio do ténis profissional está hoje mais elevado do que nunca. Os jogadores são mais fortes, mais rápidos e mais completos, o que torna o contexto objectivamente mais exigente. Perante isso, ele não tentou apenas manter-se com o que já sabia nem se apoiou exclusivamente na experiência. Elevou o seu nível.

Nesta fase da carreira, o seu serviço está mais forte, mais potente e mais decisivo. O jogo tornou-se mais directo e a sua presença em court é mais marcante do que nunca. Isto não acontece por acaso; acontece quando alguém aceita que o contexto mudou e escolhe crescer em vez de resistir. Há aqui uma maturidade rara: não lutar contra o tempo, mas aprender a jogar melhor com ele.

Fala-se muito de foco, de gestão emocional e de atenção plena, mas saber não é o mesmo que viver. Djokovic não acumula conhecimento sobre foco; ele pratica foco no corpo, no gesto e no exacto momento em que tudo à volta tenta distraí-lo. É por isso que, passados tantos anos, ele continua competitivo. Não porque nunca se desorganize internamente, mas porque sabe voltar. Não apenas porque treina bem, mas porque gere a sua energia, a sua atenção e a sua presença ao longo do tempo.

Fora do court, a lógica não é assim tão diferente. Reuniões constantes, decisões sucessivas, pressão para responder rapidamente e ruído externo e interno a disputar atenção fazem parte do quotidiano de quem lidera. Quantas vezes estamos fisicamente presentes, mas mentalmente ausentes? Quantas vezes lideramos enquanto a mente está presa ao que falhou ontem ou ao que pode correr mal amanhã?

Liderar não é ter todas as respostas; é saber criar espaço interno para responder com clareza. Para Djokovic, independentemente do que aconteça numa final — esteja ou não prestes a conquistar o seu 25.º título do Grand Slam — chegar aqui, aos 38 anos, não é acaso. É consequência de uma forma de estar e de uma relação diferente com o tempo, com a pressão e com o próprio foco. Num mundo cada vez mais ruidoso, talvez a verdadeira vantagem não esteja em fazer mais, mas em saber onde colocar a atenção. A pergunta que fica é simples e exigente: onde está a tua presença quando mais precisas dela?

Florbela Silva
Fundadora, Estúdio da Alma

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